synopsis

fridged (in portuguese)

Reflexos da alma?

Fridged, de Pedro Matos Soares, surpreende pela observação original dos laços inesperados que a intimidade doméstica pode estabelecer entre a humanidade e a matéria que a serve.

Retratando o rosto de algumas pessoas e os seus frigoríficos - e num caso até, apenas o frigorífico - o fotógrafo inverte aqui os papéis aparentes que uns e outros assumem normalmente: os rostos são mostrados sem emoção, impassíveis, de aço, poderíamos mesmo dizer, enquanto os frigoríficos aparecem animados por tudo aquilo que as suas portas podem fixar, suportar, enquadrar ou até ser. Ou seja, à personalização dos frigoríficos corresponde um congelamento das expressões e emoções das pessoas, e um quase esvaziamento do ser.

Este trabalho desenvolve-se assim em quase confronto com uma longa tradição literária que, em diferentes culturas, liga naturalmente a face e a alma humanas: o velho Marco Túlio Cícero, no séc. I a.C., disse que “a face é o espelho da alma”, sendo que na outra margem do mundo, oito séculos mais tarde, aquele que muitos vêem como a sua contraparte chinesa, Du Fu, o grande literato da época Tang (séc. VIII), chegou à mesma conclusão por outras palavras, “as caras são o reflexo da alma”. Em Fridged, é mesmo o frigorífico que assume essa função reflexa, sendo as caras o mais ‘desalmadas’ (stricto sensu) possível. Não deixa, todavia, de ser curioso notar como, nos antípodas das mais altas expressões da cultura humana, a sabedoria popular parece alimentar menos ilusões sobre a humanidade do que os intelectuais: "quem vê caras não vê corações", diz ela, podendo o espectador colocar-se num correcto e pragmático meio-termo que lhe permita aplicar a sapiência de ambas as posições consoante o(a) interlocutor(a).

Como em outros trabalhos de Pedro Matos Soares, nos quais os níveis de exposição se sobrepõem, em Fridged temos um caso de dupla exposição: a dos retratados (pessoas e coisas) e a do autor, que não se expondo directamente, fá-lo através daqueles que fotografa e lhe são próximos, numa espécie de “digo-te com quem ando, dir-me-ás quem sou”. Tendo parado (in)discretamente à porta do frigorífico, esta exposição dos seus amigos não é no entanto levada às últimas consequências, a da revelação do seu interior e logo dos hábitos alimentares, nos quais se julga poder ver uma manifestação da personalidade (“diz-me o que comes, etc...”). No entanto, mesmo se com limites, a exposição da intimidade existe: aqui identifica-se claramente um camarada fixado nos amanhãs que canta(va)m, ali provavelmente um designer ou arquitecto meticuloso e minimalista, sendo ainda possível perceber a presença soberana das crianças, que alimentam uma relação mais próxima do que os adultos com o frigorífico e o(s) seu(s) mundo(s) interior(es).

Poderemos até ver, nesta aparente necessidade em decorar e apropriar as suas portas, uma manifestação de animismo em relação ao frigorífico, talvez traduzindo inconscientemente o reconhecimento humano pelo electrodoméstico que possibilitou uma revolução alimentar, ou seja mais e melhor vida, ao permitir conservar os alimentos para além do seu prazo de existência natural. Afinal, quem personaliza o fogão ou qualquer uma das máquinas de lavar? E não poderíamos ainda vislumbrar, na relativa perenidade que o frigorífico empresta aos alimentos, aquela que a fotografia confere aos rostos?

Ora, se existe claramente uma personalização dos frigoríficos, ela não é acompanhada pela despersonalização das mulheres e dos homens retratados, que aqui não acontece, atendendo a que a cara é a mais forte componente da personalidade exterior, concentrando boa parte do meios humanos/ pessoais de comunicação e expressão; existe sim uma suspensão da emoção, na qual a gravitas do retratado não nos permite adivinhar estados de espírito ou, maxime, a sua verdadeira personalidade, razão pela qual poderemos falar de abstracção de expressões e emoções.

Para quem goste de categorias, e atendendo a que o fotógrafo também é investigador, nas fotografias apresentadas podem identificar-se claramente três correntes da fotografia contemporânea (que, no fundo, o são de sempre, mesmo se não nomeadas): o story telling, através da narração de detalhes de vida pessoal, o deadpan, presente na neutralização/imobilização do retratado, e a intimate life, na qual o fotógrafo expõe a sua intimidade ou a dos seus íntimos.

A exposição Fridged arrisca-se a deixar um impacto permanente na vida de quem a veja: por um lado, fará com que passemos a olhar de outra maneira para o nosso frigorífico, e para aquilo que diz de nós mesmos, o que no limite nos pode levar a uma antes inimaginável auto-censura; por outro, pode fazer de nós voyeurs inesperados, e suscitar curiosidades mais ou menos saudáveis em relação à cozinha do próximo. Logo, arriscamo-nos todos a ficar verdadeiramente fridged, até porque seremos levados a esconder esse neo-interesse num olhar o mais neutro possível...

Que seja uma exposição a provocar um efeito tão duradouro nas nossas vidas domésticas e na forma como as 'vemos', é não só uma prova, mesmo que a enésima, sobre o impacto da arte na vida humana, mas também uma confirmação da força e da originalidade deste trabalho de Pedro Matos Soares, no fundo reconhecidas pelo Centro Português de Fotografia ao integrar um destes 'pares' na sua colecção.

André Dourado | Lisboa 2011